pedro carneiro // @carneiro.akapedro

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Hoje, infelizmente não teremos feijão, feijoadas e nem encontros. É complicado te perguntar como você está, sei que não estamos bem. As notícias que recebemos só pioram. Já tem um tempo que não nos encontramos, eu sei, não vamos nos ver mais... não como éramos, nem como somos. Tenho tantas lembranças dos nossos encontros. Hoje em dia chamamos de aglomeração; eu lembro de ser só um motivo para nos encontrarmos e comermos feijão ou feijoada. Lembrança. Todos os amigas/os reunidos, família reunida, samba alto, música gritada e cantada. Não lembro como o pulmão aguentava tanto esforço. Alguém com o braço levantado sempre fazia sinal para outra pessoa chegar mais perto. Alguém gritava, sempre tinha quem se assustava, mas o grito era de alegria; seguido de um abraço. O som não abaixa, os tambores tocam mais fortes, o refrão é ainda mais alto. O calor da rua faz com que os corpos fiquem ainda mais suados. Uma mesa mais afastada pede mais uma cerveja, reclama que tá quente, troca, a outra não tá tão gelada, mas tá melhor de beber. A roda canta uma música triste, mas é a tristeza de um bom samba, o coração sofre, mas no rosto estamos com um sorriso largo. Como eu, hoje, escrevo essa carta. O último ano foi complicado, e não me despedir de você foi ainda mais complicado. 16 anos juntos. Um amigo, uma amiga, metade da minha vida. Eu já esperava essa despedida, mas tinha pensando que teríamos uma última roda de samba, comeríamos uma última feijoada, talvez eu parasse nas suas escadas e veria o céu ficando mais claro. Conforme o sol tomasse o seu lugar no céu, agora completamente azul claro, o terceiro ônibus saindo do largo anunciaria, “chegou a hora de dormir”. E todos nós teimosos, insistindo em não dormir, esquentaríamos uma panela de feijão para o café da manhã. Nos despediríamos dos amigos que resistiram até o fim, fechando as suas portas. Aí sim, sentiria que a despedida estaria completa. Feijão.

Tem gosto de telefone tocando, a voz do seu Nilson avisando para passar na sua casa para almoçar, sempre tinha feijão quente me esperando. Combina com Dona Glória me chamando para trabalhar no dia de roda de samba e feijoada. Eu como todo jovem adolescente, tentando escapar para encontrar meus amigos na rua, no final todos queriam comer a feijoada dela e cantar na roda de samba. E eu? Acabava trabalhando. O cheiro me lembra gritos para reunir a família toda para a foto, nem sei quantas pessoas cabiam nessa foto, mas sempre cabia mais e todos estavam satisfeitos de tanto comer. São Jorge em cima da janela da cozinha guardava a casa. Dia 23 de abril tem feijoada para ele. Essa carta é para lembrar do Estação Glória, meu lugar, para falar das saudades. O que significa feijão senão um motivo para nos encontrarmos. Hoje não vamos poder nos encontrar, hoje não tem motivo de fazer feijão. Só resta a lembrança e a saudade. Até breve.
 

Saudades.

 

Pedro Carneiro.