CONVERSA | Eloy Vergara

Convidamos Eloy Vergara para conversar sobre o processo de produção executiva artística e os possíveis desdobramentos da arte em meio a maior crise sanitária do nosso século. Eloy é produtor executivo, studio manager de artistas como Vivian Caccuri, Pedro Carneiro e Luiz Martins. Perguntamos sobre o processo de criação durante a quarentena e como isso afeta o mercado artístico em um cenário local e mundial. Também participaram da conversa remota os artistas residentes da Casa da Escada Colorida.

[conversa realizada em maio 2020]

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CASA DA ESCADA COLORIDA: Eloy, como tem sido seu trabalho, em particular com a Vivian Caccuri, e o que você percebe de diferente no meio artístico durante a quarentena?


ELOY: Eu cheguei para trabalhar com a Vivian Caccuri para fazer um freela para a Bienal de São Paulo — Incerteza Viva — se não me engano foi em 2016, para fazer o final da produção da instalação que ela tinha lá. Ela foi a primeira artista com quem trabalhei que pensava a sua carreira como algo além da produção criativa. Já naquela época a Vivian pensava no acervo, no financeiro, enfim e em todas as etapas da sua carreira como artista profissional. Acho que isso é um ponto importante de levantar, principalmente agora nesse período de quarentena, quando as oportunidades institucionais vão ficar cada vez mais restritas e a tendência dos mercados é ficar cada vez mais fechados também. A tendência é ao localismo. Todos os países, principalmente os países com mais dinheiro, vão incentivar os seus próprios artistas. A gente já tinha uma dificuldade de circulação dos artistas do hemisfério sul no hemisfério norte, e tudo indica que agora vai ficar mais difícil ainda. A Vivian foi a primeira pessoa com quem eu fui trabalhar que tinha esse projeto de carreira bem definido. Com isso, eu apresentei o meu projeto de carreira para ela. Fiz uma proposta de trabalho de 3 anos e era: eu vou cuidar de todas as burocracias, de todos os empecilhos possíveis que ela pudesse ter, dentro da medida do meu conhecimento também, porque eu estava entrando cru. Chegamos em um acordo: “vamos crescer juntos”. Meu empenho era criar em uma estrutura de trabalho para que ela tivesse mais tempo para se dedicar ao processo criativo, de forma que o processo de produção executiva ficaria comigo. E foi isso que aconteceu durante esses 3 anos, agora a gente está entrando aqui no quarto ano.


RESIDENTES: Você acha que o mercado exterior vai ficar fechado por muito tempo pra nós? Como você vê isso pro futuro?


ELOY: Acho que é bom a gente começar a olhar para o hemisfério sul do planeta, não somente para o Brasil. Eu acho que ainda tem a grande menina dos olhos também, a China, ninguém sabe como vai ser isso, como chegar nesse mercado e como atuar por ali. De toda forma, eles [os países com dinheiro] vão priorizar o localismo. A tendência não só para o circuito de arte, mas, no geral, é que as fronteiras se fechem. Sejam as fronteiras geográficas, sejam as fronteiras fictícias. Eu tenho pesquisado e onde eu tenho apostado mais em desenvolver a maneira de tirar esse intermediário dos Estados Unidos e da Europa é em uma comunicação entre a América do Sul, América Central, África e a Ásia. Esses assuntos são um dos principais temas das conversas com a Vivian e o resto da equipe do ateliê. Como que a gente consegue fazer essa comunicação sem o intermediário europeu nem o norte-americano? Isso é um ponto de vista de produção executiva. A minha esperança é fazer com que a gente consiga fazer circular essa produção artística sem esse intermediário. É sempre o colonizador que faz o recorte, que seleciona, que determina as narrativas que vão estar em voga ou não. Não que a gente não tenha a nossa elite artística que vá cercear e determinar também, mas se a gente tira esse ponto do norte americano e do europeu, temos um caminho mais horizontal. A gente consegue fazer com que o hemisfério sul construa conexões entre eles diretamente.


CASA DA ESCADA COLORIDA: Eloy, o que você tem percebido da vivência da arte no mundo digital e a relação desse momento com a própria produção artística?


ELOY: Até um mês atrás era muito mais intenso e muito menos seletivo. Então você tinha um fluxo de informações constantes e praticamente ininterrupto de lives, de postagem em redes sociais, de um milhão de outras coisas. Acho que a dificuldade para o artista nesse momento é entender o tempo e a velocidade da sua produção. No momento, a gente vive um estado constante de trabalho. Acho que o primeiro ponto que a gente tem que entender, para essa nova produção, é não se cobrar. Principalmente desses artistas que têm um tempo muito distinto de produção. Porque é isso, a gente está passando por uma situação que nossos pais não passaram. Acredito que todo mundo tenha por volta de 20, 30 anos. A gente está no auge da nossa carreira profissional, de energia, de empenho e de repente veio um corte e paralisou isso. Fez com que a gente tivesse que rever a maneira como a gente trabalha e vive. Seria interessante ouvir dos residentes como reagiram a isso!


RESIDENTES: É... por aqui eu tomei uma decisão de parar de trabalhar. Eu me auto concedi uma licença psiquiátrica (risos). Eu não estava conseguindo, estava me fazendo muito mal tudo isso. Esse ciclo de ficar se cobrando e ficar sofrendo que não faz, mas não consegue fazer. Eu decidi que ia parar e eu parei de fazer tudo. Também consegui mandar alguns poucos editais. [...] E quando eu decidi parar, eu melhorei. Assim tem sido um pouco melhor mentalmente.


RESIDENTES: Posso falar uma coisa? Agora, acho que tem sido um momento meio introspectivo de avaliação e planejamento. A gente fica se sentindo culpado se você não tá produzindo o tempo todo, mas pintar um quadro é um aspecto da minha vida. Nesse momento, eu tô pensando em melhorar meu site ou colocar em ordem o meu inventário. Estou fazendo coisas em volta da minha carreira como uma artista. [...]


RESIDENTES: Eu ando numa montanha-russa agora. A princípio, eu estava muito no processo de negação...de “não vou fazer mais nada”. E de repente bateu até um desespero. Entrei na residência e vai acontecer virtualmente, mas aí “o que que eu vou fazer para incentivar isso?”. Bateu uma frustração muito grande, mas depois eu comecei a olhar por um outro lado: eu comecei a ver e a observar e ver coisas onde eu não via. Olhar pela janela e fotografar de dentro de casa.


CASA DA ESCADA COLORIDA: Como fica o mercado artístico nessa pandemia?


ELOY: Acredito que a gente vá entrar em um período de recessão geral e isso vai fazer com que as vendas caiam e isso vai fazer, principalmente, com que o preço das obras caiam. [...] Porém isso tudo é algo que a gente vai conseguir entender um pouco mais para frente. Eu acho que só depois disso, quando estiver em um lugar um pouco mais seguro, a gente vai conseguir entender melhor o mercado. E para quem é representado, isso influencia diretamente na manutenção dessas galerias, principalmente as galerias médias e pequenas. Elas vão precisar se reinventar. As galerias grandes vão continuar vendendo. Então esse mesmo cenário que a gente tá pensando para os artistas, a gente tem que pensar para as galerias também. E as galerias que entenderem que estão no mesmo barco que os artistas, acho que vão poder fazer algo inovador juntos, construir algo juntos. Acredito que seja por aí.


P.S.A conversa foi feita no início do lockdown mundial, quando o número de casos no Brasil começava a preocupar.

Observamos a consolidação do localismo no norte global, que já era uma tendência antes da pandemia. Voltar o olhar para a cena local se tornou uma necessidade. Houve um aumento no corte de pessoal nas instituições de arte que gerou uma articulação dos trabalhadores para defender os seus direitos culminando em uma série de greves mundo a fora. Políticas públicas, em países mais progressistas, foram desenvolvidas para fomentar os artistas em tempos de incerteza.

A dificuldade de trânsito de pessoas e produtos entre os países reforçou a política de redução de pegada de carbono. Produções remotas, com concepção de projetos no país de origem e construção e execução no país onde ocorre a exposição se tornaram práticas mais comuns.

O mercado, principalmente as feiras de arte, usaram das exposições virtuais (on-line viewing rooms) para manter o fluxo de vendas durante o lockdown. Isso tem causado uma mudança no foco das vendas para trabalhos que tem maior facilidade de registro digital. No contexto nacional encontramos alternativas interessantes como a Lei Aldir Blanc que se iniciou como uma espécie de auxílio direto para os trabalhadores da cultura, mas que se transformou em um edital de projetos. Iniciativas de EAD para a capacitação e especialização dos trabalhadores da arte e cultura, como o “Fôlego Programa”, foram desenvolvidas a partir da lei. Reforço a intenção e importância, neste momento difícil para o setor, de construção de uma cena local forte, concisa e cooperativa. Esse entendimento do fortalecimento local é essencial para mantermos a integridade e qualidade do cenário artístico. Links interessantes: https://www.frieze.com/article/frieze-editors-discuss-what-art-world-has-learned-2020 https://www.frieze.com/article/breaking-art-worlds-closed-circle https://news.artnet.com/opinion/gavin-brown-gladstone-gray-market-1897239 https://folegoprograma.com.br/projeto/


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