Pode me pagar em sacos de arroz?

Bernardo Bazani @bernardoazani


Brasil, setembro de 2020. A tentativa é de contextualizar o momento para um futuro próximo, por mais complexo que seja. No meio de uma pandemia a nível mundial, sem precedentes, o dólar americano encosta nos cinco reais e setenta centavos, o que favorece o lucro mediante exportações. O agronegócio opta por exportar mais commodities, em detrimento da alimentação do povo. Falta arroz e, pelas duras leis do mercado, o preço aumenta. O governo federal insiste em não intervir na economia, acreditando na mão invisível e na fábula da autorregulação do mercado.

Rio de Janeiro, Laranjeiras, setembro de 2020. O saco de cinco quilos de arroz supera os trinta e cinco reais no supermercado mais próximo à minha casa.

Império Romano, 753 a.C. a 476 d.C. A remuneração do trabalho dos soldados era feita em sal, produto que, naquele momento, valia como ouro e que, hoje, é um dos produtos mais baratos da cesta básica brasileira. Daí a palavra salário, remuneração em sal.

Belford Roxo, Porta do Céu, setembro de 2020. Um jovem artista, Doda Paranhos, escreve a palavra “arroz”, com sal, em uma via pública. O arroz, produto mais consumido e referido pelos brasileiros, sofreu um descolamento da realidade por uma imposição do neoliberalismo. A ardência[1] provocada pela imagem gerada pelo artista não se dá pelo toque ou pelo contato, ao contrário: a fricção ocorre pelo aumento da distância entre o arroz e a mesa. Doda remonta uma balança histórica, onde o produto que custou como ouro é usado para escrever a palavra que nomeia o alimento que, até então, era o mais democrático, e que, hoje, evidencia a distância que há entre as classes sociais no Brasil e as impiedosas ferramentas de lucro da classe dominante.

A ação performativa saiu de uma conversa entre um grupo orientado por Bia Petrus, através da Escola Sem Sítio, que se propõe a discutir sobre a arte e suas implicações sociais. O trabalho foi desenvolvido bem cedo e descortinado pela manhã. Olhares, estranhamentos e a certeza de que a palavra “arroz” incomoda tanto quanto arde o sal.

A dissolução do trabalho traz força à narrativa, mostra a potência que há nas adversidades, em como um trabalho de arte pode adquirir camadas com a participação de quem, antes, era apenas o espectador.[2] Até que, no mais potente dos cenários, o artista tenha sua autoria dissolvida em ação coletiva, como analisou Holmes[3] e como sugeriu Expósito[4]. A instalação feita por Doda foi finalizada de forma cíclica. Voltou para de onde foi tirada. O sal que consumimos por aqui, na maior parte das vezes, é obtido pela evaporação da água do mar em salinas, refinado, embalado, transportado, comprado. Aqui foi usado em um trabalho de arte, dissolvido por um balde d’água pelo dono do comércio em frente, que levou, através do gesto de quem foi tocado, o sal de volta ao mar.

[1] Aqui me remeto ao artigo “Quando as imagens tocam o real” de Georges Didi-Huberman. [2] RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. [3] HOLMES, Brian. Eventwork: a quádrupla matriz dos movimentos sociais contemporâneos. Editora Sistema Solar, 2019. [4] EXPÓSITO, Marcelo. A arte como produção de modos de organização apud JUNG, Ana Emília. Arte ocupação: práticas artísticas e a invenção de modos de organização. ECA/USP, 2018.

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