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OPERAR (N)O CAOS

Bia Petrus & Bernardo Bazani
 

     Operar (N)o Caos é a mostra de um processo movido pelo desejo de construir alternativas de convivência e compartilhamento similares as que acontecem numa residência artística, em um contexto de isolamento e de inúmeras incertezas que a pandemia nos impôs.

     Um desejo que já nasceu como (im)possibilidade, uma vez que estamos conscientes que nada substitui a presença. A menos que estivéssemos dispostos a negociar com o fracasso por um lado e por outro com a potência de invenção de algo que sequer poderíamos nominar.

     Havia um grupo desejante. Havia oportunidade de arriscar. Diante do medo da morte, que outro medo se justificaria? O do fracasso? Não foi suficiente. A pergunta a se fazer ao grupo se colocava: num tempo em que nos encontramos sob as mais diversas ameaças, o que nos anima?

        Esperávamos que cada um respondesse, se possível, a essa pergunta, sem encontrar resposta que encerrasse o desafio. E que isso como processo fosse além, abrindo-se a outras perguntas que, entre as frestas do que aceitamos chamar de residência virtual, se colocassem. Era importante chamar esses encontros de residência? Era importante prometer uma exposição dos artistas ao final? Onde estaria o final? A sensação de caos acompanhava a pandemia, o país, o mundo e emergia em pesadelos comuns. Conseguiríamos tirar proveito dessa sensação de caos? O que seria isso senão uma possibilidade de fracassar, de errar sem medo, experimentar o impossível, surfar na incerteza...

       Para os participantes desse experimento, cabe, agora, nessa volta de tempo espiral, entender de quanta coisa conseguiram abrir mão e o que conseguiram incorporar, nessa vivência entremeada de mortes que a pandemia nos obrigou a suportar. Conseguimos tornar esse processo uma oportunidade? Seria possível perceber as armadilhas disfarçadas de causas? Foi possível manter uma convivência dissonante, quando todos desejavam encontrar os iguais, na ilusão de se protegerem.

        Para Bernardo Bazani, que assina o texto, o caos enquanto presença cria tensão entre operar e ser operado e se nutre de processos sistematizados e acasos. E acrescento: não se revela como potência aos que não se entregam. Isso inclui incerteza e risco. Enquanto nos perguntávamos se era isso um processo de residência artística, o caos já operava em nós. Já fazíamos os encontros. Estivemos a pensar juntos, Bernardo e eu, ao longo de todo o processo, uma “exposição-modo-de-operar” que como promessa já se colocasse a se desfazer. Sabíamos que só a viabilizaria aquilo que não se estabilizasse e que se colocasse incessantemente a fazer perguntas. Aprendemos a acreditar enquanto desacreditamos, que mais do que nunca é tempo de arte. É tempo de negociação e conflito. Difícil é (des)enganarse.

       O texto proposto por Bazani é, em si, uma construção a ensaiar-se de dentro de sua (in)experiência que se desenha enquanto dúvida, tremor, excitação e desejo. Agradecemos à Casa da Escada Colorida, que acredita neste modo de operar em processo, de formular perguntas-respostas-perguntas em contínuo, enquanto desenha sua própria existência.

        Sabemos o quanto precisamos de lugares possíveis para que grupos se mantenham ativos e vivos, em busca desse alargamento necessário, sendo crucial identificar outros usos e práticas, em alguns aspectos dissonantes das linhas dominantes no campo das artes visuais institucionalizadas. As porosidades ainda cabíveis à Casa da Escada Colorida, nos encorajaram a emergir como sujeitos a contestar e a desafiar outros modos de operar, orientados para valores e significados “no” e “para” o presente.

 

Bia Petrus - Curadora

 

 

 

OPERAR (N)O CAOS A mitologia grega conta1 que Caos é o deus ou a consciência divina primordial, um “vazio de caráter informe, ilimitado e indefinido, que precedeu e propiciou o nascimento de todos os seres e realidades do Universo”2 . Seu nome é derivado do grego chaíno e evoca, entre significados como “rachadura”, “cisão” e “corte”, o espaço vazio. O “nada”, antecessor de tudo e qualquer coisa. Filosoficamente, na tradição platônica, caos é uma amálgama de elementos desordenados que antecedem as intervenções do demiurgo. O “todo”, sucessor do “nada” e antecessor da vida. Para a Física, caos é o “comportamento de um sistema dinâmico [...] regido por equações cujas soluções são extremamente sensíveis às condições iniciais”3. Durante as seguintes reflexões, desviaremos dos significados de caos enquanto “confusão”, “desarmonia” e “perturbação”.

Por entendermos caos como uma presença, reafirmamos os significados que nos tornam ativos ou incorporam nossos gestos às dinâmicas. Buscamos formas de lidar com a presença do caos e, mais do que isso, buscamos formas de agir de maneira relacional com esta existência. Levantamos as questões: o que grita mais alto o vácuo senão o pedido de sua ocupação? Como ocupar o vácuo, o espaço vazio ou uma folha em branco? A partir de quais decisões, democráticas ou arbitrárias, uma superfície é ocupada? Qual a importância do primeiro gesto nos sucessivos acontecimentos sistemáticos e encadeados?

Pessoalmente, fui instigado e estou interessado em meios e métodos de “operar (n)o Caos”. O que apresento são reflexões teórico-metodológicas, que, antes de oferecerem uma coleção léxica de conceitos estáveis e encadeados, oferecem uma série de pensamentos que desestabilizam e desencadeiam métodos lineares, contestando a própria linearidade da História e do Tempo, guiados por Cronos, abraçando os desvios propiciados pela Arte em caminhos labirínticos e se aproximando da noção de montagem 4 5. Operar (n)o Caos está fundamentada no conceito de “operação”, intimamente ligado e que advoga a favor da ação que vem acompanhada do pensamento crítico. “Operar é aproximarse do conceito de práxis, proposto por Karl Marx e trabalhado por diferentes autores pósmarxistas. Uma relação dialética entre teoria e prática. [...] E, para além disso, operar é estar atento às modificações inerentes à teoria quando posta no mundo e estar aberto a repensála a partir de sua materialização”6 . Uma postura atenta é necessária para que possamos identificar padrões de organização em meio ao caos. Para que possamos agir no interior de uma (des)ordem, ou em meio à revolução que está em curso, como propõe Preciado7 . Estar atento, como sugere a Internacional Situacionista em suas derivas labirínticas, como sugere o conceito de Incerteza 4. Arquitetura como modo de operação: operar por montagem. Rio de Janeiro: Universidade Santa Úrsula, 2021. 7 PRECIADO, Paul B. Regime heteronormativo vai colapsar com a revolução em curso [Entrevista concedida a] Naná de Luca e Úrsula Passos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2021. Viva8 ao argumentar em favor do acaso, como sugere o conceito de operação quando busca superar a dialética “teoria e prática”. Operar (n)o Caos requer a mesma postura de quem habita o desconhecido, um sítio imaginado, um ateliê virtual, Algum Lugar9 . Sendo assim, retornamos à questão: como ocupar o vácuo, o espaço vazio ou uma folha em branco? Como operar (n)o caos? Nesta exposição, os doze artistas – que participaram do ciclo de acompanhamento crítico da Casa da Escada Colorida – apontam para modos de operar (n)o caos, investigados durante os últimos meses. Portanto, cada vez que os nomes de Alexandre Paes, Allan Pinheiro, Amauri, Bruna Alcantara, Carlos Matos, Graziella Bonisolo, Hebert Bichara, Lucas Botelho, Luiz Martins, Luiza Furtado, Racquel Fontenele e Sofia Skmma são pronunciados, luzes cintilam anunciando algumas destas operações como fogos de artifício vistos da atmosfera. “Lampejos” de um método sobrevivente que suas práticas carregam.

 

1. OPERAR POR AFETO é, antes de tudo, uma das dimensões sensíveis dos modos de operação. Diferente da intuição, em que o artista altera o percurso a partir de estímulos externos, o afeto condiciona a alteração do próprio artista durante o processo, além de sua capacidade de ação, articulação e operação. Segundo Brian Holmes, “o afeto é o que nos move”10. Nas palavras de Espinosa, “por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída”11. Operar por afeto é estender seus braços às memórias e aos desejos, incorporando novos gestos que nascem da afetividade.


2. OPERAR POR DENÚNCIA parte da criação de um dispositivo sinalizador que credita à voz e sua potencialização resultados efetivos, em uma dimensão socialmente engajada da arte. Nas palavras de Didi-Huberman, “dizer ‘manifestamos’ é constatar – mesmo com espanto, mesmo sem compreender – que algo surgiu, algo decisivo”12. Enquanto operar por ilegibilidade aposta na invisibilidade e em estratégias de desaparecimento, operar por denúncia é dizer, de forma tática e altamente visível, “denunciamos!”. Se levada ao limite, torna-se, para Brian Holmes, uma “estratégia de penetração nos meios de comunicação de massa”13.

3. OPERAR POR ILEGIBILIDADE é um “movimento sorrateiro, difícil de conter”14. Enquanto operar por denúncia aposta na visibilidade-tática, a ilegibilidade aposta em estratégias de desaparecimento e na invisibilidade. Seja para se infiltrar em frestas e fissuras de instituições, seja para levar uma mensagem codificada ao espectador. Seja através de um texto escrito com uma “nova caligrafia”, seja através de “imagens inquietas”. Operar por ilegibilidade confia na análise de Foucault, que afirma que “a visibilidade é uma armadilha”, “uma arapuca”15. Esta é uma operação arriscada, pois pode facilmente ser submetida ao silenciamento e apagamento. Por conta disso, a ilegibilidade deve ser operada com consciência plena e altamente estratégica.

 

4. OPERAR POR INTUIÇÃO é criar desvios utilizando os sentidos como ferramenta. Pode ser, inclusive, uma forma de desviar do Caos. Com o tato sensível, o olhar e a audição aguçados, o faro afiado e a fala suprimida por uma respiração ritmada, quase meditativa, operar por intuição requer a postura atenta de um performer que mantém os músculos contraídos em estado de porvir, pois sabe que algo está sempre prestes a acontecer. O artista, neste modo de operação, torna-se uma esponja. Com seus poros abertos, pronto para receber estímulos externos que poderão desviar a rota e alterar o caminho. “A intuição é o método do bergsonismo”16, nas palavras de Deleuze. A intuição “é capaz de perceber a fluidez do tempo real que corre indivisível”17 .

 

5. OPERAR POR LÓGICA é orquestrar as ferramentas racionais, matemáticas, físicas e cartesianas para obter determinado resultado. Para Bergson, é um “método analítico”, que se contrapõe ao “método intuitivo” e, consequentemente, à operação por intuição. Operar por lógica é um tipo de operação que age sob o conceito do Caos, regido por equações “cujas soluções são extremamente sensíveis às condições iniciais”. Possui um rigor científico, muitas vezes modular, que expõe fragmentos do todo. Trata, portanto, do ordenamento ou encadeamento de elementos. Assim como a ilegibilidade, operar por lógica debruça-se sobre estratégias, equalizando os pares ação-reação para que resultem em potência de criação.

 

6. OPERAR POR REDE é cercar-se. É operar em um estado de confiança e horizontalidade que incorpora outros atores sociais no processo. É o dar-as-mãos apertado e tremulante de dois confidentes que estão conscientes de sua cumplicidade. Operar por rede é confiar a potência de seus trabalhos na colaboração. Ativam o entorno, evocam similaridades e associações e criam aproximações entre os trabalhos. Este modo de operação, quando levado ao limite, dá vida a um corpo coletivo, relacionado ao conceito de “Comum”18 por Hardt e Negri, que se expande em criação, produção e gestão coletivas.

 

7. OPERAR POR SUBTRAÇÃO é abraçar o Caos englobando os elementos já encadeados no todo. Este modo de operação, antes de subtrair, fragmenta novamente tudo o que o modo de operar por lógica ordenou. Neste sentido, são subtraídos os elementos que compõem o estado caótico e que não serão aproveitados, em um exercício de seleção em meio ao caos. Operar por subtração é, como ocorre também na ilegibilidade, estar do lado de dentro, tomando uma série de decisões que apreendem a crucialidade de cada gesto e de cada elemento presente em cada contexto, eliminando pontualmente determinados elementos.

 

8. OPERAR PELO CAOS, por fim, é uma atitude radical de incorporar o contexto em seu próprio modo de operação. É embarcar na dança que foi proposta. Estar disposto a mudar de ideia, questionar seus próprios limites e o controle normativo de sua existência. Operar pelo caos é fazer aparições-surpresa e desaparecer logo em seguida, “deixando um invólucro vazio”, nas palavras de Hakim Bey, “de algo que surgirá em outro lugar”19, em um outro contexto, de outra maneira, com outra forma. Reverberando de outros modos. Operar pelo caos é ser confidente do processo e fazer dele o seu próprio corpo, aguardando os ecos de seus gestos e os resultados de sua atitude.

 

Bernardo Bazani Curador