Processos. Percalços. Uma pandemia e seus atravessamentos | Rachel Balassiano


Como dar continuidade a um projeto de residência artística ainda iniciante e o que acontece com a produção dos artistas residentes no intervalo ocupado por uma pandemia, que teve início certo mas que não sabemos quando terá fim?


Reflexões e ações foram as opções que se apresentaram e nos atropelaram junto com o coronavírus. No plano original, a Casa da Escada Colorida elaborou um projeto de residência artística-ateliê para seis artistas, com duração de seis meses, incluindo acompanhamento de produção individual, leitura de portfólio, encontros com convidados para falar sobre temas advindos de demandas do grupo e encontros com a equipe da Casa, onde a ideia era dividir com os residentes conhecimentos específicos de nossas experiências no campo da arte e produção cultural.


O plano é potente e vai seguir seu fluxo original em breve, com o país vacinado. Mas enquanto esse dia não chega e o vírus recrudesce imobilizando grande parte de nossas ações e desejos, como seguir?


O que pôde ser feito?


Primeira decisão, em março de 2020: Os artistas selecionados Pedro Carneiro, Cibele Nogueira, Gabriela Noujaim, Raphael Couto e Clara Machado, se revezaram em dias e horários para frequentar os ateliês que tinham acabado de montar.


Segunda decisão: Os encontros migraram para o virtual, em reuniões semanais que no início serviram de esteio afetivo, terapia em grupo, colo e trocas sobre as produções, questões individuais e de seus processos, mas que com o tempo foram evoluindo. Ao grupo juntou-se virtualmente de Londres, por um curto período, Sabrina Collares. As trocas mudaram, as realidades e desejos também.


E de repente, foi como Deleuze e Guattari nos atropelando a todos: não havia mais um ponto de partida e chegada. À medida que vinham as transformações sobre as pessoas e suas obras, aquilo em que se transformaram também mudou, assim como o conteúdo próprio do desejo, dos artistas e nosso, da Casa. Esses devires passam a ser a nova realidade, já que a realização dependia de desejo e transformação sem freio e sem prazo para acabar. Transformar então foi preciso, e pouco a pouco caminhamos.


Como falar de seu trabalho? Como fazer uma leitura isenta, mas ao mesmo tempo clara e concisa sobre sua produção? Uma das primeiras etapas do grupo, agora online, foi a apresentação individual sobre trabalhos escolhidos. O falar e o ouvir sobre sua produção criou um vínculo forte entre o grupo, que automaticamente começou a oferecer toques, dicas, percepções sobre as obras e narrativas individuais e assim, parcerias entre eles foram se formando.


Sobre o produzir na pandemia.

Dilemas do luto, do caos e da privação vieram com força. Alguns artistas mergulharam em si mesmos, entenderam o momento de recolhimento como uma pausa necessária para pensar mais, pesquisar mais e conscientemente produzir menos, sem pressa, como Clara Machado e Raphael Couto. Participantes fundamentais e sempre ativos nas discussões do grupo, ambos com uma profunda consciência de seu pensar artístico e da necessidade que tiveram de usar um freio interno no caos e parar para refletir. Outros queriam descobrir novos caminhos, se entender como artistas e buscar nas trocas algo que os fizessem mais certos de suas escolhas. Esse foi o caminho claro de Cibele Nogueira, que atravessou nadando firme no seu processo e chegou outra artista na margem de lá do rio. Outros mergulharam em uma produção profícua e incessante, que refletia o momento de vida pessoal e do país, onde a arte foi a tábua de salvação no oceano do caos. Pedro Carneiro não parou de pintar um dia sequer, abriu uma exposição virtual individual e entrou para uma galeria no meio do caminho. Gabriela Noujaim produziu fortemente uma arte-máscara que representou seu olhar sobre a dor do feminino na frente de combate à morte diária e finalizou um livro-obra que resume o caos atual de força e potência criativa única. Cada um seguiu de um jeito. O seu jeito.


Em setembro de 2020, quando teoricamente a residência teria seu fim, mas ainda sem um possível retorno completo com presença constante nos ateliês, optamos por estender o processo. Seguir por mais tempo e trazer mais artistas para se juntarem ao grupo (em sua maioria virtualmente), ampliando assim trocas e debates.


Chegaram: Maria Baigur, para ocupar fisicamente um espaço de ateliê e espalhar imagens de corpos nus e questionamentos pungentes em fotografias que invadiram fortemente espaços da Casa inteira. Daniela Granja, que mesmo não ocupando um ateliê, habitou a casa emocionalmente e com suas cracas que dialogam diretamente com a arquitetura do local, como se fossem feitas uma para a outra. Lara Ovídio e Rodrigo Pinheiro com pensamentos muito claros e diretos em seus projetos artísticos. Lara com sua arte política e ativismo em vídeo, textos e instalações tão essenciais para a compreensão do mundo, do feminino e do tempo que vivemos, e Rodrigo com sua arte forte e concisa mas repleta de camadas que possibilitam infinitas leituras. Paula Turmina, diretamente de Londres, com sua busca pela troca com artistas brasileiros e sua pesquisa em materiais, cores e pigmentos orgânicos que conversem lindamente com a mitologia e o onírico tão presentes em suas obras. Fechando, recebemos Nau Vegar, artista de performance do Amapá, o epicentro do caos pandêmico no norte do país, e que do olho do furacão, trouxe uma potência enorme ao grupo com sua pesquisa sobre um Brasil profundo que explode com a arte do corpo pulsante, vivo, em uma energia que não há apagão que cale.


Nós, os bastidores-gestores, entramos com o acolhimento, substituindo um pouco o que o espaço físico dos ateliês e a vivência de coletivo, da criação corpo-a-corpo deveria oferecer. Buscamos transformar as dúvidas e necessidades que surgiam nas conversas em encontros com convidados que suprissem essas questões com falas das mais diversas.


Nossa proposta foi trazer vozes dissonantes ou complementares e experiências diferentes para trocas com os residentes. Assim, conversamos com nomes que trabalham e pensam o lado prático da vida do artista, com quem trata do planejamento estratégico, como Paula Ramirez e depois com Adriana Braga, com quem lida com o dia a dia de ateliê de artista e as funções de um produtor de artes visuais, na voz do nosso parceiro recorrente de conversas Eloy Vergara.


Passamos por experiências opostas às nossas, em conversas com ateliês e projetos coletivos premiados em modelos inovadores, como o pessoal do Favelagrafia e gente que questiona o modus operandi do mercado de arte e cria novos formatos, como o papo com o curador e professor Thiago Fernandes, que mediou a conversa com o Daniel Murgel do Ateliê Sanitário. Seguimos conversando com gente que pesquisa tendências e frequenta o mercado internacional, como a Roberta Ristow, que nos trouxe um panorama das feiras internacionais e galerias no exterior.


Ouvimos também narrativas que nos sacudiram e ao grupo, e colocaram o dedo na ferida com vontade. O que falar das falas sobre o percurso de acompanhamento de artistas e da crítica de arte sob o olhar da psicanálise com a Bia Dias? E daquele beliscão na alma, que dói, mas faz repensar ou mudar rumos internos que se refletem na produção artística, com a chegada da Bia Petrus, arquiteta, curadora, professora, artista e mais um monte de coisas, ao nosso grupo de conteúdo? Essas falas abriram portas e gavetas e estimularam processos e mudanças. Só agradecemos as parcerias e o formato que cada residência vai desenvolvendo e moldando, e os convidados que fomos trazendo para lidar com as questões que o grupo apresentava.


Bia Petrus seguiu conosco, dividindo o acompanhamento artístico do grupo, com provocações, questionamentos, proposições de construções e destruições de falas, conceitos e trabalhos, e participando intensamente de grande parte dos encontros, a partir da segunda fase da Residência. Bia trouxe com ela Bernardo Bazani, arquiteto-pesquisador e curador em construção, e juntos montaram a exposição de encerramento da 2a. Ocupação, um projeto montado fisicamente na Casa, mas em registro e visitação apenas virtuais nesse momento.


Pendular uniu a produção do grupo durante o período de residência e nos deu muito orgulho de ver a dimensão do crescimento e evolução das obras, processos e dos artistas desde o início do ano passado até o fim desse ciclo, que dobrou de tamanho por causa da pandemia. Em um ano, temos artistas e pessoas muito diferentes do que tínhamos ano passado.


No meio do ano chegou um reforço de peso para o nosso time. Jac Melo, produtora raçuda, mão na massa, cheia de ideias e disposição, assumiu artistas, montagens, o peso de dividir o dia-a-dia de manutenção e cuidados da Casa e tudo isso com uma calma que só quem sabe o que está fazendo tem. Jac é nossa.


Queremos e teremos mudanças sempre. Vivemos em processo de construção, assim como cada grupo que chega. Temos nossa auto-avaliação, observamos o que deu certo e o que não deu, o que podemos mudar, o que podemos melhorar e o que está exatamente como gostaríamos.


Entendemos que unir os artistas com ateliê físico na Casa com artistas que foram residentes virtuais em um único grupo, o que aconteceu no meio do processo, não teve um resultado tão bom quanto imaginamos. O número de residentes dobrou e as produções, demandas, questões e acompanhamentos também. Foi muito bom para uns, não foi legal para outros, tivemos algumas desistências, poucas, mas que nos fizeram refletir nossos processos, e entender que grupos menores com projetos afins funcionam melhor separadamente, o que já começamos a implementar em 2021.


Entendemos que o comunicar do artista, o saber falar sobre sua obra e processos e assim desenvolver um planejamento é de extrema importância e ainda está em pendência ao nosso entender. Já temos previsão de cair dentro do tema com mais força na próxima Ocupação, o que nos anima muito. O acompanhamento individual também será feito de outra forma, e vamos mudar e mudar até chegar onde queremos.


Entendemos também que nossa experiência profissional extra gestão da Casa é potente e deve ser compartilhada com os residentes, o que nos ampliou perspectivas de projetos paralelos e rendeu belas falas temáticas com o grupo. Foi algo que surgiu empiricamente ao longo do ano e que pretendemos manter.


Contribuímos com nossa bagagem prévia, em conversas específicas com o grupo, onde apresentou-se temas práticos em discussões de casos e apresentação de modelos e exercícios para que os residentes se abasteçam de instrumentos importantes para o seu dia a dia profissional/burocrático. Aqueles assuntos que ninguém te ensina na faculdade nem na vida, mas que são fundamentais para encarar e atuar profissionalmente no mundo das artes e no mercado criativo.


Camila Pinho, com sua experiência em Museologia e Patrimônio, apresentou um panorama técnico e profissional sobre precificação de obras de arte. Como calcular o preço de sua obra? Como vender seu trabalho e saber quanto ele vale e quanto cobrar por ele no mercado? São muitos os aspectos e variantes sobre o tema e os artistas se deparam com esses questionamentos diariamente.


Rachel Balassiano, advogada por formação e produtora executiva por vocação, unificou conhecimentos do Direito Autoral e Contratos usados em produções e projetos de arte e cultura, compartilhando com o grupo os direitos e deveres que os protegem e às suas obras, bem como sobre a importância de saber analisar um contrato no mundo das artes, seja para participar de uma feira, seja para entrar para uma galeria, seja para ceder ou doar uma obra.


Jac Melo vem da História da Arte, e atua igualmente no universo da execução e montagem de exposições, como também nos passos iniciais de um projeto, na parte fundamental para seu "nascimento". Como montar um projeto de arte e como inscrever e participar de editais? Um passo-a-passo fundamental para artistas conquistarem independência nesse campo.


Nosso time segue nos bastidores de todos os projetos que a Casa abraça, dividindo com nosso gestor (influenciador-sonhador-economista), Bruno Girardi. Ele que tem ideias 24 horas por dia, 7 dias por semana, que fala com 100 pessoas ao mesmo tempo, buscando parceiros, captando investidores, trazendo nomes para projetos, buscando artistas e curadores, cuidando da Casa.


Seguimos acreditando que dias melhores virão, que 2021 ainda vai ser limitado fisicamente e de pouca convivência no espaço da Casa, mas os planos continuam a todo vapor, e muitas coisas estão por vir.


Em abril começamos a nova turma de Residência-ateliê, a nova turma de Residência-virtual e duas turmas de Residência de Curadoria. Muita coisa para fazer e muita gente para cruzar nossa escada de azulejos e abrir nosso portão.


Pode chegar que a Casa é sua.


Rachel Balassiano

Casa da Escada Colorida

Abril de 2021.


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